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Primeiros brotinhos da safra 2014 dos Côtes de Provence Sainte Victoire. 

Silence, ça pousse chez les vignerons de Côtes de Provence Sainte Victoire. (à Rousset)

Primeiros brotinhos da safra 2014 dos Côtes de Provence Sainte Victoire.

Silence, ça pousse chez les vignerons de Côtes de Provence Sainte Victoire. (à Rousset)

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Até 15 de abril de 2014, essa foto poderia ser descrita como “um móvel sobre outro”, pois animais eram considerados como bens móveis na França. Ontem, a Assembleia Nacional francesa reconheceu os animais como “seres vivos dotados de  sensibilidade”. 

Merci l’Assemblée Nationale pour enfin avoir reconnu que les animaux sont des êtres vivants dotés de sensibilité.

Até 15 de abril de 2014, essa foto poderia ser descrita como “um móvel sobre outro”, pois animais eram considerados como bens móveis na França. Ontem, a Assembleia Nacional francesa reconheceu os animais como “seres vivos dotados de sensibilidade”.

Merci l’Assemblée Nationale pour enfin avoir reconnu que les animaux sont des êtres vivants dotés de sensibilité.

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Sabe o rio azul lindo, que percorre um dos desfiladeiros mais exuberantes da França, Gorges du Verdon? Pois é aqui que ele nasce. Esquiamos na nascente do rio Verdon, que fica numa estação de deixar o queixo caído. A Provença não pára de me encantar.

Sabe o rio azul lindo, que percorre um dos desfiladeiros mais exuberantes da França, Gorges du Verdon? Pois é aqui que ele nasce. Esquiamos na nascente do rio Verdon, que fica numa estação de deixar o queixo caído. A Provença não pára de me encantar.

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Esse é o rio Verdon, que tem nascente logo ali nos Alpes. E nós esquiamos sobre a nascente do Verdon. (à Colmars)

Esse é o rio Verdon, que tem nascente logo ali nos Alpes. E nós esquiamos sobre a nascente do Verdon. (à Colmars)

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O que aprendi em 4 anos

Nossa mudança pra França começou há quase cinco anos. Decidimos passar o fim de semana dos namorados em junho em Pedra Azul, no Espírito Santo, para escutar o barulho da natureza, a sinfonia dos sapos e o silêncio da noite, jogar conversa fora enquanto os pés esquentavam na beira da lareira, contemplar a Serra da Canastra ao longe e o Pico da Bandeira. Nosso retiro sossegado foi interrompido pela ligação que informou nosso destino de expatriação: França. Mais exatamente, a Provença. Em março do ano seguinte, a avalanche de sentimentos que me invadiu culminou com uma despedida regada de lágrimas no saguão do aeroporto de Confins. Depois de muita espera, da mudança de destino - inicialmente iríamos pra região de Chicago - ali estávamos nós, atravessando a porta de vidro que nos separa dos nossos queridos e embarcando pra maior viagem das nossas vidas.

Ao longo desses 4 anos eu aprendi muito: um outro idioma, outros costumes, outros hábitos, outros gestos. Aprendi a guardar meus pensamentos pra mim mesma com mais frequência. Aprendi que algumas despedidas são feitas à conta gotas, mas que isso não reduz a dor na hora do adeus definitivo. Aprendi a conter mais as lágrimas, e ao mesmo tempo a não impedi-las de debordarem quando necessário for. Aprendi a relativizar: não é melhor, nem pior, é diferente. Aprendi que tudo é questão de referencial: o caminho pro trabalho pode ser mais agradável se visto pelos olhos de um viajante. Assim, os 60km diários de ida e volta ao trabalho viram viagem diária pela rota do vinho. Ou uma corrida em torno da cidade vira uma oportunidade de descobrir novos detalhes que escapam ao olhar apressado do cotidiano. Aprendi que a arte de dirigir em rotatórias. E a ficar feliz quando anunciam a construção de uma nova no meio da estrada pro trabalho, faz diminuir a velocidade e deixa a gente apreciar a paisagem.

Aprendi que tomate só é gostoso na primavera e no verão e quando cultivado pertinho, e que não adianta querer comer abóbora em julho: não tem. A natureza nos dá aquilo de que precisamos pra cada estação do ano, adaptar os pratos como adaptamos o guarda roupas faz parte do ciclo. Aprendi que, assim como o guarda roupas e a alimentação, os esportes se adaptam à mudança de estações. Aprendi a esquiar depois de muitos tombos, que me fizeram aprender a levantar mais rápido - na realidade e metaforicamente.

Aprendi que na França queijo vem antes da sobremesa, que pão serve de acompanhamento e também é usado pra limpar o molho do prato. Aprendi a esperar que todos estejam servidos, e a dar a primeira garfada depois de ouvir e dizer “bon appétit”. Aprendi a harmonizar vinhos e refeições, a esperar os raios de sol mais quentes pra degustar o primeiro rosé num terraço, a sentir o aroma das frutas no vinho branco de Cassis, a tomar vinho doce na hora da sobremesa. Aprendi que o feito em casa é mais valorizado que o comprado pronto, mas se não dá pra fazer em casa todo dia, comprar pronto não é o fim do mundo. Aprendi que os legumes comprados na feira são mais gostosos (e mais baratos) que os comprados em supermercado. Que o faça você mesmo é gratificante. Que pintar uma parede não é difícil. E que faxinar minha casa é chato, mas necessário.

Aprendi que francês também fala alto, dá gargalhadas desmedidas em público, reclama do governo, dos impostos, chora no ombro de amigo, briga no trânsito, ultrapassa sinal vermelho e fura fila, não necessariamente nessa ordem. Aprendi que alguns clichês não existem por acaso. Aprendi que um clique encurta distâncias e aproxima pessoas, por vezes mais do que um abraço que damos em alguém depois de passar 12 horas num avião sobrevoando o atlântico, mas alivia bastante a saudade. Aprendi que expatriado fala um idioma diferente: inventamos palavras, com a plena convicção de que elas existem no idioma de origem, e mudamos grafia porque fica esquisito no jeito ortograficamente certo. Aprendi que um idioma estrangeiro pode nos ajudar a falar melhor nosso próprio idioma, ou a criar um idioma alternativo - o português expatriado.

Aprendi a não sair de casa sem antes olhar a previsão do tempo. A programar passeios em função do sol, chuva ou vento, e também das estações do ano. A me vestir assim ou assado se tem sol com vento ou sem. A levar um casaquinho em caso de dúvida (sábio ensinamento da minha saudosa avó). A não pentear os cabelos se o mistral sopra. A usar coque desgrenhado - antes eu fazê-lo do que o vento. A reclamar quando chove - porque ficamos mal-acostumados a ter 60 dias de chuva durante todo o ano, o que faz aparecer um dia durar uma eternidade.

Aprendi a aproveitar ao máximo as atividades ao ar livre, porque passamos mais da metade do ano escondidos do frio. Com isso, aprendi que não preciso de academia pra continuar me exercitando. Corro no frio. Corro no calor. Corro quando o mistral sopra. Tudo isso pra tomar ar. Só não corro quando chove. Mas são 60 dias, então fica garantido o descanso. Corro pra grama do parque pra aproveitar o sol, mesmo que seja inverno e que faça 0 grau. Aprendi que o sol é desses bens que só damos o devido valor quando perdemos. Aprendi, com a Luna, que tomar banho de sol todo dia é tão importante quanto beber água. Continuo não gostando do calor e gostando do frio, da neve na montanha porque sem ela não tem esqui, mas a neve na porta de casa é pouco prática, sorte que acontece raras vezes por aqui.

Aprendi a dizer não sem culpa, e descobri o quão libertadora essa palavrinha pode ser. Não dá pra agradar a todos, não dá pra estar presente em todos os eventos, em todos os momentos, o que não significa entretanto que deixei de me importar. Aprendi que renunciar ou rever certas convicções pode abrir nossos horizontes, tirar pesos dos ombros e minimizar angústias descabidas, além de melhorar diálogos. Aprendi que separar vida pessoal de vida profissional é saudável e necessário, mas não impede que façamos amigos no trabalho ou que boas relações sejam mantidas em ambiente profissional.

Aprendi que bonjour, merci au revoir abrem mais que sorrisos, constroem mais que pontes, e derrubam grandes barreiras. Foram essas três palavrinhas que trouxe comigo do Brasil. E foram elas que abriram um mundo diante de mim, e que me possibilitaram inclusive voltar a exercer minha profissão. E porque aprender é atividade cotidiana nessa vida de expatriado, completo esses 4 anos com ainda mais sede de aprender. Porque essa taça não transborda, ainda bem.

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Vale a pena encarar o medo. No meio da pista preta a paisagem é de sonho.
Ça vaut le coup d’affronter sa peur. Sur une piste noire, le paysage est de rêve. (à Gorges de Sarenne)

Vale a pena encarar o medo. No meio da pista preta a paisagem é de sonho.
Ça vaut le coup d’affronter sa peur. Sur une piste noire, le paysage est de rêve. (à Gorges de Sarenne)

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Neve de primavera. Significa que em breve os Alpes estarão verdinhos, e as pistas de esqui darão lugar às trilhas de bicicleta. A neve derrete e os rios da montanha atraem os apaixonados por rafting. Porque a montanha tem muito a oferecer, o ano inteiro! (à L’Alpe d’Huez)

Neve de primavera. Significa que em breve os Alpes estarão verdinhos, e as pistas de esqui darão lugar às trilhas de bicicleta. A neve derrete e os rios da montanha atraem os apaixonados por rafting. Porque a montanha tem muito a oferecer, o ano inteiro! (à L’Alpe d’Huez)

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Bonjour le printemps et la journée mondiale du bonheur !
Bom dia primavera e dia mundial da felicidade ! (à Parc de la Torse)

Bonjour le printemps et la journée mondiale du bonheur !
Bom dia primavera e dia mundial da felicidade ! (à Parc de la Torse)

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Cézanne teria gostado desse derradeiro crepúsculo hivernal. 
Cézanne aurait aimé ce dernier coucher du soleil hivernal.

Cézanne teria gostado desse derradeiro crepúsculo hivernal.
Cézanne aurait aimé ce dernier coucher du soleil hivernal.

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Un bonjour de Cézanne !
Cézanne manda bom dia! (à La Rotonde)

Un bonjour de Cézanne !
Cézanne manda bom dia! (à La Rotonde)